ESPELHO E DESEJO
... Enfim Marcelino adormeceu, depois de ficar alguns instantes virando de um lado para outro na cama, um sonho veio visitá-lo. Nos domínios de Morpheus, tornou-se possível para o rapaz obter uma nova existência, porém com algumas diferenças em seu estado físico. Após um descontrolado consumo de alimentos transgênicos por parte da humanidade, incluindo neste coletivo os pais de Marcelino, os seres humanos começaram a nascer com alterações genéticas nunca vistas antes, os olhos ao invés de olharem para o exterior, nasciam voltados para dentro dos próprios corpos, por conseqüência ao invés de admirarem paisagens, pessoas, objetos, os humanos foram condenados a olharem apenas para os seus próprios interiores, atropelando uns aos outros, sem conseguirem encontrar seus próprios caminhos. Ao despertar involuntariamente pela manhã, traindo seu desejo por mais uma vez, Marcelino mostrava-se extremamente atormentado com o sonho que teve, tentou contá-lo aos seus pais, os quais extremamente desinteressados assistiam ao jornal matinal, mais por costume do que por interesse. Após tomar o café e escovar seus dentes, despediu-se de seus genitores para enfrentar mais um teste de paciência e resistência física no ônibus, que o transportara para o trabalho, rotineiramente, ao embarcar notou um jovem rapaz com o qual tinha estudado, primeiro veio a preocupação em ver seu ex-companheiro utilizando o assento especial, mas logo, o rapaz levantou-se esbanjando saúde e desembarcou, deixando pra trás gestantes e idosos que seguiam viagem em pé. Depois do desconforto vivido dentro do coletivo, Marcelino chegou ao seu trabalho, estranhamente seu chefe o comprimentou com um estranho bom humor, traduzido num sonoro: - Bom dia! Porém após alguns minutos, ele recebeu um telefonema do proprietário da empresa, que fez com que seu humor se transformasse numa antítese do seu estado de espírito anterior. O relógio de ponto que mantinha Marcelino prisioneiro, estava prestes a lhe conceder a liberdade condicional, porém o descanso estava longe para o nosso batalhador, tinha mais uma barreira a ser transposta: A escola. Chegando ao local, Marcelino estranhou a aproximação de uma garota que mesmo estudando há cerca de três meses com ele, nunca tinha lhe dirigido a palavra, após alguns minutos ele matou a charada, naquela noite a classe passaria por uma avaliação de matemática, matéria na qual ele era um dos primeiros da sala. Após mais uma guerra quotidiana, o nosso soldado se dirigiu para o forte em busca de alimento, banho e cama. Dormiu a espera de um sonho que o transportasse para um lugar distante e diferente, posteriormente, o seu desejo foi realizado, Marcelino agora ganhara notoriedade por ter inventado os óculos que criavam a realidade desejada pelo proprietário, além do reconhecimento da classe cientifica, o bem sucedido inventor também era aclamado pela sociedade que trocou imediatamente os psicotrópicos pelo seu invento. Uma senhora que acabara de adquirir o novo produto, acabara de ter uma longa discussão em seu lar, após o acontecido saiu para trabalhar no ônibus, sem intenção uma moça pisou em seu pé que estava decorado com seu melhor sapato, motivo este suficiente para propagar uma longa série de impropérios, abastecidos pela confusão domiciliar, mas com os óculos do genial Marcelino, a razão estava sempre ao seu lado! Após acordar envolvido em uma nova tormenta, Marcelino suava em bicas, sua consciência o flagelava por ter concebido o mecanismo que embora levassem a humanidade à destruição, forneciam anestésico suficiente para a não percepção da realidade. O novo gênio merecia relaxar, Marcelino tomou um banho com a intenção de afastar de si àquela sensação ruim que o desanimava, a fumaça produzida pelo chuveiro fazia chover sobre o jovem os pingos de uma maldição. Após alguns instantes impressionado, convenceu-se que era apenas um sonho e que deveria procurar uma maneira de livrar-se daqueles mundos noturnos, afinal eles poderiam acabar subvertendo a verdade suprema contida na realidade, abruptamente seu autoconvencimento foi interrompido pelo barulho de um tiro que parecia muito próximo à sua casa. - Será que sou um profeta? - Ou os caminhos e desencontros da humanidade são demasiadamente previsíveis. - Creio que não será necessário para a humanidade um novo invento para conseguir a destruição, já possui os ingredientes suficientes para a concepção de um apocalipse artificial: espelho e desejo. Fernando Rocha
Escrito por Fernando Rocha às 19h31
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