CINEMA E REFLEXÃO: 1,99: UM SUPERMERCADO QUE VENDE PALAVRAS
A sensação de viver uma vida opaca, derivada de um tipo de material perecível e instantâneo, alicerçada em areia movediça, sentimento de estar confinado em um certo tipo de prisão,da qual é impossível fugir,onde as grades não encerram ninguém a imobilidade, pelo contrário, aguçam e oferecem a sensação de uma liberdade condicional que camufla o estado de prisão perpétua ao qual estamos submetidos, por meio de estímulos visuais e sonoros, que permitem comprar emoções empacotadas e ideais de vida pré-moldados. Após assistir ao filme: 1,99: Um supermercado que vende palavras, esta é uma possibilidade de sensação para o expectador, a qual pode invadir sua mente e lhe trazer um indesejado desconforto intelectual. Filmes de ficção científica tornaram-se menos irreais, Inteligência Artificial, de Steven Spielberg, que nos mostra a possibilidade de compra do amor incondicional de um filho andróide, ou o monitoramento feito nos sonhos dos andróides de Blade Runner não parecem mais impossíveis perante a realidade na qual vivemos. O conceito de construção do mundo por meio da linguagem fica mais claro após a exibição do filme, pois como a obra nos mostra que não compramos o conteúdo contido nas embalagens dos produtos, mas sim as ideias acopladas à eles por meio das diversas formas de linguagem da propaganda, remetendo ao que escreveu Humberto Gessinger em uma de suas canções: Propaganda é a alma do negócio/No nosso peito bate um alvo muito fácil. Fazendo uso novamente de uma citação de um verso de um outro compositor chamado Neil Young: Há mais a ser visto do que os olhos podem ver, fica claro que o que se subentende também está embutido no texto, tal conceito é confirmado pela criação estética do filme analisado,que mesmo sem a utilização da linguagem oral em narrativas lineares, nos oferece a possibilidade de construir um entendimento da obra, identificando alguns slogans já consagrados no mundo publicitário e os significados que estão intrínsecos à eles. Outro mecanismo que confirma este conceito são as mensagens subliminares freqüentemente utilizadas no mundo da propaganda, que tem o poder de induzir o consumidor a comprar sentindo vontade de adquirir um produto sem se dar conta da origem de tal desejo, comprovado cientificamente, como no histórico exemplo do aumento nas vendas de coca-cola e pipoca em um cinema americano na década de 50 do ultimo século, que se deu após a instalação de dois telões localizados ao lado da tela na qual a obra cinematográfica era exibida, com a mensagem subliminar que dizia: Tome coca-cola e coma pipoca! O fundo branco utilizado no filme funciona como um contraponto entre a violência visual causada pela propaganda que nos imobiliza tal qual um lutador de artes marciais, maquiando assim a sua verdadeira intenção com uma cor que em diversas culturas significa pureza, limpeza e ingenuidade, tal qual Stanley Kubrick fez no clássico, Laranja Mecânica, tornando a agressividade das cenas amenizadas pelos cenários coloridos, que beiram a infantilidade. Como bem diferenciou Jean Jacques Rousseau em seu célebre livro, O Contrato Social, há uma diferença entre a vontade de todos e a vontade geral, a primeira atende a um interesse comum a todos, entretanto, o segundo atende a um interesse privado aglomerado, olhando para a nossa sociedade vemos a primeira sucumbindo à segunda, e ambas sendo tratadas como se fossem sinônimos absolutos, e isto vem nos transformando em massa saboreada lentamente dentro da insaciável boca do sistema capitalista, no qual vivemos. Diretor: Marcelo Masagão Ano de lançamento: 2003
Escrito por Fernando Rocha às 11h46
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