BEM VINDO!
Século XXI, a alta tecnologia rodeia toda a humanidade, botões poupam o esforço físico, diálogos são efetivados sem a utilização da voz, palavras vêm ao mundo, da mesma maneira que a queda dos anjos desertores, despencando das pontas dos dedos, se espatifando sobre as teclas dos computadores. A poluição curadora de uma constante exposição no céu mostra-se imponente perante aos artistas que a retocam diariamente, e esses não se preocupam com o que irá acontecer quando a obra estiver finalizada. O cuidado com a aparência ganha conotação de neurose, medicamentos antidepressivos fazem parte da moda da estação, a velha questão do ter e ser parece ter sido solucionada: só se é quando se têm! Neste mundo de coisas sem sentido, Gastão contempla as promessas de um futuro melhor, numa existência cheia de confortos, aproveitando o desconforto que a solidão lhe impõe, liga o computador à espera de uma mensagem eletrônica, mas sua caixa de entrada está vazia, tal qual a sensação que preenche o seu ser, há meses que o telefone não toca aproximando a voz de um amigo ao seu coração, após mais um momento de decepção, uma idéia golpeia seu raciocínio: -Mesmo com a promessa de poupar o tempo que a tecnologia oferece, a queixa mais freqüente que ouço é: “Não tenho tempo pra nada!”. Com esta idéia fixa na cabeça, Gastão passa alguns minutos mergulhados numa intensa inquietação em busca de conforto em alguns versos, após passar um tempo com os olhos fechados debruçado sobre a escrivaninha, mas as palavras não vêm. Por um instante o caos do mundo pareceu procurar abrigo dentro da cabeça do jovem, suas idéias criaram uma fórmula destrutiva combinando, incertezas, tristezas e solidão, seu corpo frágil não resiste à tamanha tormenta, concedendo-lhe um descanso, propiciado por um desmaio... Sentindo-se fora do tempo desperta com sua consciência estranhamente mais clara, após alguns instantes de inconsciência, levanta-se levemente tonto, dirige-se para janela de seu quarto e admira a devastação silenciosa da humanidade que mesmo em perigo não percebe que o fim a cerca num abraço confortante por meio das facilidades oferecidas pela “evolução” tecnológica, poupando-a das emoções naturais comuns ao seres humanos. As possibilidades de fuga são diversas, se estiver estressado não é necessário o descanso, basta tomar um medicamento anti-stress, se quiser encontrar alguém para conversar, não é necessário ir à um parque, casa noturna, basta ligar o computador e acessar um site de relacionamentos. Gastão insistentemente perguntava-se: -Será que não perceberam que estão se afastando cada vez mais? -Assim como a expansão do universo após o “Big Bang”, na qual os corpos celestes se distanciaram uns dos outros, pode ser que os humanos estejam sendo coordenados pela força dos tais corpos e condenados ao mesmo destino. O consumismo extremo que consumia a humanidade também o aborrecia, e mesmo num país de terceiro mundo como o Brasil, pessoas que não têm um bom grau de escolaridade e mal têm o que comer, possuem aparelhos de última geração, telefones celulares tornaram-se parte das vestimentas, e acompanhavam humanos em seus passeios, tal qual animais de estimação no passado. Assim como a história de Jó, Gastão esperava de alguma forma um alento que pudesse eliminar aquele sentimento de inadequação que crescia infinitamente dentro de si. Após pensar exaustivamente, chegou a uma conclusão, gritou: -Suicídio! Mas não teve coragem para consumar o ato, algo parecia prendê-lo ao plano terrestre. Há um tempo chegará a escrever versos de despedida: Padecer de existir Este o momento certo Para me autodestruir Acabar de vez Com o que havia por vir. A opção que lhe restou foi a de registrar todas as suas impressões em um velho caderno que possuía juntando assim um amontoado de decepções relacionadas à raça humana e a si mesmo, como se quisesse fazer com que as páginas do caderno absorvessem os males do mundo, funcionando como um tipo de filtro para sua sanidade. Restringiu-se da convivência com os seres humanos, e passou a ter como amigos discos e livros, com os quais dialogava em silêncio. Numa noite, na qual as lágrimas insistiam em não saltar do subjetivo para o mundo real, esta talvez a única mágica realizada pelos humanos, temperou seu interior com uma essência, que realçava o amargo da vida, saiu para espairecer, ouviu gritos enlouquecidos, parou em frente a uma igreja, silenciosamente observou o comportamento dos fiéis, após alguns minutos de observação, pensou: -Provavelmente devem estar desesperados por se deixarem ser explorados por alguém que não consegue solucionar seus próprios problemas e mesmo assim planta medo e incerteza na cabeça dos outros, para obter beneficio financeiro, como pode isto acontecer? Desapontado com a cena que acabara de presenciar, decidiu retornar para casa, pelo menos lá não se chatearia com o absurdo que se torna real a todo instante. A cabeça de Gastão parecia nunca descansar, outro fato que o incomodava bastante, era a falta de noção do coletivo com o qual as pessoas agiam no dia-a-dia, faltava reconhecer no outro um pouco da humanidade que há em si, se é que ainda há! Repentinamente, Gastão desistiu de colecionar seus desapontamentos com a raça humana num caderno, caiu em si e percebeu que ele também fazia parte de todo o desacerto que o atormentava, era mais um personagem, nessa história trágica, sem final previsto, recolheu a totalidade de sua força e coragem e assim como outros milhares de seres humanos, lavou o rosto, escovou os dentes, ignorou o significado das coisas, parou de procurar sentido em tudo, assumiu a indiferença existente em si, fechou os olhos para entrar no vasto grupo dos indiferentes, ao invés de massacrar o seu ser preferiu massificá-lo, ao fechar os olhos, ouviu um eco receptivo ressoando dentro de sua cabeça dizendo-lhe: - Bem vindo! Fernando Rocha, São Paulo, 2006
Escrito por Fernando Rocha às 14h07
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