A MENINA E O DIABO DA PEDRA

Há tanto tempo ando guardada entre papeis e travesseiros, que já nem lembro mais se é inverno ou primavera. Outra vez durante a noite acordei assustada, abri meus olhos e estava frente ao escuro, estava em frente ao escuro do meu quarto e pensei: Havia uma pedra no meio do caminho. Quantas vezes mais isso iria se repetir, já era a terceira vez essa semana que acordava meio ao escuro, toda vez o mesmo pensamento sobre a maldita pedra do Carlos, outra vez a mesma sensação de ser nula de ser impotente frente à noite incerta. Um olhar para a cabeceira da cama revela a luz do rádio relógio três horas da madrugada, uma olhada para dentro de si revela uma moça, magra, desajustada e com astigmatismo. Toda essa insônia havia começado há alguns dias quando meio a uma aula de recuperação no último sábado o professor perguntou sobre o que seria a pedra no caminho de Drummond, várias colegas da turma colocaram a mãe, mas Vanessa não, não poderia achar a mãe uma pedra, ela nunca estava presente, trabalhava de noite dormia de dia, para sustentar as duas, definitivamente a mãe não era uma pedra no caminho. Dois garotos da mesma turma de Vanessa, disseram que o pai era uma pedra, mas como poderia o pai da menina ser uma pedra, se ela nunca o vira, talvez nem soubesse de sua existência, por isso o pai não poderia ser a pedra e assim a pedra ficará sem nome, até então. Como já foi dito durante as últimas noites a pedra vinha procurar sua identidade, acordava nossa heroína e por mais que essa estivesse com vontade de dormir a pedra estava no meio do caminho, pois no meio do caminho havia uma pedra! - Que diabos! O estomago reclamava, mas a geladeira estava vazia, ela tinha certeza disso, a vontade de ter um minuto de paz e ser quem quiser ser em sonhos não acontecia, e tem mais, para completar sua noite a visão parecia mais e mais turva a cada instante, aliás, Turva Demais. - Serei eu a pedra! – como um arroto as palavras jorraram e a jovem menina se assustara ainda na cama. Seria eu a pedra no caminho da minha mãe, -Não posso pensar assim, recriminava-se a jovem, ...talvez seja eu, uma pequena pedra, que dê para ser saltada, quase nem notada meio a estrada tão grande, por fim eu nem atrapalho, ou será que estou falando isso só pra me conformar? -Faz tanto tempo que sou pedra, dezesseis anos sendo pedra e nem percebi! O escuro é atormentador a noite parece à eternidade e eu a tenho inteira, para ser a pedra da minha mãe... A mãe de Vanessa trabalha no Hospital durante a noite e dorme de dia, - Ora bolas já falei isso! A rotina se repete diariamente com pequenas interrupções de passeios escolares e idas ao shopping e mercado. Nada, além disso. Vanessa tem mais um pensamento sobre a mãe e esse pensamento a leva da cama para a mochila jogada no canto, dentro da mochila a mão tateia atrás dos dois únicos amigos verdadeiros, ao qual sabe e sente que pode confiar seus pensamentos, o lápis e o papel, recusava as canetas eram imperdoáveis não permitiam erros e a filha de Vera adorava ter o poder de se corrigir, enfim era o único lugar que poderia se sentir única, o lápis era a única fonte de ligação desta menina com o real. Após tatear pelo quarto e acender a luz, a garota sente os olhos arder, aperta o lápis na mão direita e segura com carinho uma folha recém arrancada do caderno, senta na cama de novo, olha para a folha, não pensa em nada só olha a folha e repentinamente a imagem de um balão cor de rosa subindo aos céus começa a se formar frente à folha. Vanessa apertando a folha começa a desenhar o balão, pensa na luz que ilumina, na forma de sombreá-lo, pinta um céu claro usando o branco da folha e o cinza do lápis lembra das técnicas do curso de desenho feito há um ano, usa todos os recursos que tem e a mão muda de direção. A mão desenha um barbante amarrando o balão, não é um barbante qualquer é um barbante de diversos fios, Vanessa pega um pedaço do cadarço do tênis que tinha e desenha os veios do barbante, o barbante trás formas de ligação maiores que o que o desenho tem, o barbante trás mostra o desejo que Vanessa tanto anseia. Tem então outra idéia corre ao aquário da sala olha cuidadosamente para o fundo deste e retira uma pedra com lodo guardada no fundo das águas, volta ao quarto sem nem olhar para os cantos só tem olhos para a pedra, tudo em volta está turvo só a pedra parece ter sentido meio a todo o resto, a dona do balão cor de rosa segura a pedra começa a reproduzi-la em uma escala maior, muito maior. Em cada detalhe descobre um mondo novo uma sombra nova uma cor totalmente nova, Nova Demais... Quando olha para o desenho vê uma pedra amarrada a um barbante e esse amarrado a um balão cor de rosa da festa de aniversário ainda na cama coloca o desenho debaixo do travesseiro, corre para o botão, apaga a luz com um clique, volta à cama, fecha os olhos e se pergunta se o balão do desenho levava a pedra ou a trazia? Deixaria essa parte para ser respondida por outras pessoas, por outras pessoas que tinham uma pedra no caminho ou que quem sabe no caminho teriam uma pedra, pois agora tinha que aproveitar que o sono voltara... Allan Roberto, 09 de Junho de 2009
Escrito por Fernando Rocha às 16h58
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PROBLEMATIZAÇÃO DA LEITURA

Um fato sabido por todos é o da importância da leitura, atividade esta que pode ampliar o horizonte do ser humano, haja vista, que a vida por si só não basta, e a arte supri o vazio da realidade nua e crua, permitindo ao leitor analisar melhor o mundo no qual vive assim consequentemente possibilitando o exercício de uma cidadania embasada numa maior autoridade. Todavia o incentivo à leitura, ainda carrega o valor burguês parnasiano do inicio do século XX, o qual prega que a leitura é uma espécie de souvenir, o qual enfeita o ser humano, tornando-o um ser acima da média, focando apenas a vaidade, que efetua a aplicação da equação: Fulano+ leitura do autor do livro X= Pessoa culta. Ler o livro do autor renomado, apenas para contar aos amigos e empunhar o título abstrato de pessoa culta, não basta para que de fato a leitura tenha transformado a vida do cidadão, libertando este das correntes das construções dos valores da sociedade. É fato que a arte em geral pode tornar o homem num ser menos bruto, tornando assim o coletivo de indivíduos e o lugar no qual eles vivem num lugar mais harmonioso para a convivência humana. Enquanto o incentivo à leitura estiver calcado na desigualdade social, partindo do ponto de que apenas a cultura burguesa deve ser considerada de fato cultura, e se o proletariado quiser tornar-se culto, deve se esforçar para se apropriar desta fatia da cultura geral abrindo mão da sua cultura, para que assim possa se igualar aos seus opressores, alcançando o ilusório status de igual, e de certa forma cumprindo a função de escravo e vigia da injusta estrutura social brasileira, o índice de leitores de nosso país continuará muito abaixo do ideal. Quando o sistema público de educação e os proletariados que têm o hábito de ler, perceberem que a leitura é uma forma crítica e poderosa para perceber as injustiças do mundo, talvez a leitura transforme num poderoso instrumento de transformação social. E quem sabe assim os jovens aumentem seu interesse pela atividade de leitura, enxergando nesta alguma função social e não um mero enfeite abstrato para vaidosos intelectuais, o que só os distancia de tal atividade, aí poderemos ultrapassar o não contente estado de um povo mal-alfabetizado e assim nos tornarmos um povo letrado.
Escrito por Fernando Rocha às 14h53
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