NEURÓTICO AUTÔNOMO


Ó MUNDO TÃO DESIGUAL

No Brasil uma discussão que vai e volta à arena de debates, é a existente entre os artistas e o poder público, os primeiros reivindicam dos segundos um maior investimento e apoio para a construção da arte nacional, por meio das leis de incentivo, contudo, um detalhe que não é mencionado em tal debate, é o paradoxo encontrado no país, a miséria que convive pacificamente com a alta tecnologia, pois é fato que a arte é importante para a construção de uma sociedade mais desenvolvida e até mais humana, mas para se criar ou admirar uma obra de arte é necessário estar com a barriga cheia.

Na letra da canção A Novidade, de Gilberto Gil, escrita na década de 80 musicada e gravada pelos Paralamas do Sucesso, a situação paradoxal do país é retratada com precisão. Após o aparecimento de uma sereia numa praia, o caráter de novidade anunciado no título da canção é atribuído ao ser, a presença de duas classes sociais (ricos e pobres) a admirarem tal evento, mostra que o olhar é construído pela necessidade que cada grupo impõe aos seus membros: Alguns a desejar seus beijos de deusa/ Outros a desejar seu rabo pra ceia.

A realidade brasileira é o mais perfeito yin e yang, só que sem nenhuma harmonia para equilibrar o todo. Ao mesmo tempo em que pessoas ainda morrem de fome (literalmente) em decorrência de doenças como a hanseníase, alcançando índices só não mais altos do que o da Índia e outros países miseráveis, a presença das últimas invenções do mundo tecnológico, colocam o país na berlinda, avançar e quem puder acompanhar que vá, deixando pra trás um rastro enorme daqueles que não conseguiram principalmente por motivos econômicos acompanhar o bonde, ou parar e esperar que todos tenham fôlego suficiente para seguir a odisséia? Haja força não é Ulisses?

Mesmo vivendo numa sociedade onde a antítese deixa de ser figura de linguagem, para reger o tom da dança das contradições, é comum encontrar ao abrir o jornal, uma matéria escrita por alguém que só conhece uma das metades do Brasil, criticando o gosto da música apreciada pelo proletariado, ou as sobre o mau gosto das roupas desta classe. Esquecem-se tais profissionais que as más qualidades apontadas nos menos favorecidos, são frutos da cadeia na qual os menos favorecidos se encontram, esses se vêem na obrigação de sentirem-se inseridos na sociedade, mas sem o mesmo poder de compra da burguesia, o que faz entrar em cena o vale tudo.

Talvez boa parte desta discrepância seja decorrência daquele papo de avançar 50 anos em cinco, sem antes preparar a sociedade para receber tais avanços, mas pelo contrário fazendo-a trabalhar para construir tal sonho, sem avisá-la de que nem todos iriam gozar dos seus prazeres.

Enquanto os paradoxos não forem amenizados, o belo só será bom se como entrada para obras cinematográficas e de teatro, forem distribuídas refeições gratuitamente como item atrativo para estimular o aumento no número de expectadores.

 

 

 



Escrito por Fernando Rocha às 10h38
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TODO MUNDO QUER SER COOL?

 

Toda unanimidade é burra, talvez se o dramaturgo estivesse vivo escreveria: toda unanimidade é cult, pois é nos tempos atuais todo mundo quer ser descolado, cool, melhor cult, mesmo quem não conhece aquilo sobre o que fala, diz sem o menor sinal de constrangimento eu aprecio a banda X, leio o autor Y, com um único objetivo ser admirado pelos seus interlocutores.

Com as comemorações dos 100 anos da morte de Machado de Assis em 2008, muita gente elogiou o escritor brasileiro, mas será que todos o leram? Pois na sua grande maioria os depoimentos só teceram elogios, mas sem fundamentar as opiniões, ao menos apontando para a ironia, uma das características mais presentes na obra do autor.

Algo semelhante acontece com o grupo britânico Radiohead, todo artista que quer soar cult, ao ser perguntado sobre suas preferências musicais, menciona o quinteto, ao inovarem a venda de música com seu álbum In Rainbows, permitindo com que os consumidores dessem o preço para o trabalho (iniciativa inovadora e louvável) boa parte dos ouvintes atribuíram tal inovação às músicas, quando a estética sonora adotada pela banda, embora muito competente não apresenta nenhuma evolução além das quais o grupo já havia obtido no seus últimos trabalhos.

É melhor ficarmos atentos há muita gente querendo parecer o que não é, falar ou escrever sobre o que não sabe, com a mera intenção de soar cool, cuidado com os hypes que a mídia tenta nos impor, eles não são tão perigosos, mas os que estão por trás deles são e muito.

 



Escrito por Fernando Rocha às 16h07
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