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BEIJAR, beijar e beijar
Deitada na escuridão a menina pensa, (menina, pois toda boa mulher ou senhora meio a escuridão transforma-se em menina). A escuridão, e não precisa ser escuridão da noite, tem o poder do esquecer e do reviver; transformada toda mulher em menina outra realidade se abre. E a menina pensa no beijo. O complicado é saber se é o desejo de Reviver que traz a escuridão, ou se a Escuridão é que traz o desejo de reviver, mas a boa moça não se atém a essas picuinhas; isso tudo é pouco, e na escuridão tem guardada uma menina, que pensa no beijo e revive-o parágrafo a parágrafo perdida dentre as palavras e imagens. O presente fica vago, toma para si o negro do esquecimento, o presente fica calmo, silencioso, ali, bem pertinho, quase invisível, mas ali. Quem toma cor são os pensamentos (e que pensamentos!), olhos abertos, mãos tremendo, olhos semi-abertos, mão no bolso, olhos nos olhos e Beijo. Como um filme na TV sexta à noite, só que melhor, muito mais sabor, menor barulho, quase nenhuma lágrima. Claro que tem lágrima, como poderia não ter, eu estava a beijar, “rebeijar”, me fundir, deixar o existir e passar a viver aí! Talvez esse beijo seja um assombramento que nunca aconteceu, uma das sobras do passado ou quem a sombra do futuro. Confesso a moça meio à escuridão, a menina do beijo abstrato, sou eu... Sou a dona do choro de uma lágrima, uma lágrima perdida no rosto, e sim eu choro e confesso: - Pelo meu amor só fui beijada nos sonhos! Monica dos anjos P.S.: Para meu amor beijado e rebeijado meio a escuridão.
Escrito por Fernando Rocha às 18h28
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O HOMEM OCO
Ser apenas sem estar a sentir o tempo que como uma lança a todos atravessa. Proseguir... sem fazer a escolha certa, preferindo não ter de escolher. Sempre em busca da opção correta: Querer nada querer! Ter o tato que tudo muda Do universal para o singular, Ouvir do oco que há dentro de si O eco do silêncio. O título deste pseudo-poema foi inspirado no poema “The Hollow Man”, de T.S. Elliot, o qual tem uma parte declamada pela personagem de Marlon Brando, no filme “Apocalipse Now”
IMAGEM E PALAVRA A dor Adormece Tornando-se Mero adorno Na ilusão da vaidade. Verdade inconsistente Que, subliminarmente, Impera no coração. Fernando Rocha, Novembro de 2009
Escrito por Fernando Rocha às 19h21
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ESPELHO E DESEJO
... Enfim Marcelino adormeceu, depois de ficar alguns instantes virando de um lado para outro na cama, um sonho veio visitá-lo. Nos domínios de Morpheus, tornou-se possível para o rapaz obter uma nova existência, porém com algumas diferenças em seu estado físico. Após um descontrolado consumo de alimentos transgênicos por parte da humanidade, incluindo neste coletivo os pais de Marcelino, os seres humanos começaram a nascer com alterações genéticas nunca vistas antes, os olhos ao invés de olharem para o exterior, nasciam voltados para dentro dos próprios corpos, por conseqüência ao invés de admirarem paisagens, pessoas, objetos, os humanos foram condenados a olharem apenas para os seus próprios interiores, atropelando uns aos outros, sem conseguirem encontrar seus próprios caminhos. Ao despertar involuntariamente pela manhã, traindo seu desejo por mais uma vez, Marcelino mostrava-se extremamente atormentado com o sonho que teve, tentou contá-lo aos seus pais, os quais extremamente desinteressados assistiam ao jornal matinal, mais por costume do que por interesse. Após tomar o café e escovar seus dentes, despediu-se de seus genitores para enfrentar mais um teste de paciência e resistência física no ônibus, que o transportara para o trabalho, rotineiramente, ao embarcar notou um jovem rapaz com o qual tinha estudado, primeiro veio a preocupação em ver seu ex-companheiro utilizando o assento especial, mas logo, o rapaz levantou-se esbanjando saúde e desembarcou, deixando pra trás gestantes e idosos que seguiam viagem em pé. Depois do desconforto vivido dentro do coletivo, Marcelino chegou ao seu trabalho, estranhamente seu chefe o comprimentou com um estranho bom humor, traduzido num sonoro: - Bom dia! Porém após alguns minutos, ele recebeu um telefonema do proprietário da empresa, que fez com que seu humor se transformasse numa antítese do seu estado de espírito anterior. O relógio de ponto que mantinha Marcelino prisioneiro, estava prestes a lhe conceder a liberdade condicional, porém o descanso estava longe para o nosso batalhador, tinha mais uma barreira a ser transposta: A escola. Chegando ao local, Marcelino estranhou a aproximação de uma garota que mesmo estudando há cerca de três meses com ele, nunca tinha lhe dirigido a palavra, após alguns minutos ele matou a charada, naquela noite a classe passaria por uma avaliação de matemática, matéria na qual ele era um dos primeiros da sala. Após mais uma guerra quotidiana, o nosso soldado se dirigiu para o forte em busca de alimento, banho e cama. Dormiu a espera de um sonho que o transportasse para um lugar distante e diferente, posteriormente, o seu desejo foi realizado, Marcelino agora ganhara notoriedade por ter inventado os óculos que criavam a realidade desejada pelo proprietário, além do reconhecimento da classe cientifica, o bem sucedido inventor também era aclamado pela sociedade que trocou imediatamente os psicotrópicos pelo seu invento. Uma senhora que acabara de adquirir o novo produto, acabara de ter uma longa discussão em seu lar, após o acontecido saiu para trabalhar no ônibus, sem intenção uma moça pisou em seu pé que estava decorado com seu melhor sapato, motivo este suficiente para propagar uma longa série de impropérios, abastecidos pela confusão domiciliar, mas com os óculos do genial Marcelino, a razão estava sempre ao seu lado! Após acordar envolvido em uma nova tormenta, Marcelino suava em bicas, sua consciência o flagelava por ter concebido o mecanismo que embora levassem a humanidade à destruição, forneciam anestésico suficiente para a não percepção da realidade. O novo gênio merecia relaxar, Marcelino tomou um banho com a intenção de afastar de si àquela sensação ruim que o desanimava, a fumaça produzida pelo chuveiro fazia chover sobre o jovem os pingos de uma maldição. Após alguns instantes impressionado, convenceu-se que era apenas um sonho e que deveria procurar uma maneira de livrar-se daqueles mundos noturnos, afinal eles poderiam acabar subvertendo a verdade suprema contida na realidade, abruptamente seu autoconvencimento foi interrompido pelo barulho de um tiro que parecia muito próximo à sua casa. - Será que sou um profeta? - Ou os caminhos e desencontros da humanidade são demasiadamente previsíveis. - Creio que não será necessário para a humanidade um novo invento para conseguir a destruição, já possui os ingredientes suficientes para a concepção de um apocalipse artificial: espelho e desejo. Fernando Rocha
Escrito por Fernando Rocha às 19h31
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"CRONICAR" O RELATIVO, UM PARADOXO!
Há horas que te roubam por infindas contagens de tempos e por vezes os segundos fazem o mesmo. Por um breve momento estamos lá, e lá não estamos. Como dividir esses fugazes momentos, esse extravaso do inconsciente, sim, esse extravaso; que anseia pelo vazio... Talvez, essas seriam perguntas para os grandes artigos, mas ninguém se preocupa com esse sentimento: tanto ao olhar para as cheias de verão ou para incêndios, as palavras simplesmente fogem! E as perguntas que ficam são: quanto tempo leva para voltar a si ao ver veículos queimarem? Ou ainda, quanto ainda temos? Para só então nos darmos conta de que o homem no telhado, cercado por águas é um “cara” com mais medo dos outros homens do que da avassaladora natureza. Se relacionarmos esses sentimentos com nosso dia-a-dia, talvez nos encontraremos em meio a horrores dos dias de incêndio banal ao olhar o café com leite no fogo, ou talvez quem sabe no labiríntico pavor da dúvida, se sai para trabalhar às seis ou se dorme mais cinco minutos! Allan Roberto
Escrito por Fernando Rocha às 16h49
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DOSSIÊ TEEN
Uma coleção de documentos, é esta a mais comum definição de dossiê, que encontramos nos dicionários, o que pode levar o leitor a instantaneamente concluir que há dossiês valorosos e outros dispensáveis, mas se o objeto de referência de análise for o blog Dossiê Teen, o valor é inquestionavelmente bom. Encabeçado por Danilo Vaz, o espaço cibernético é a prova de que há jovens pensantes e com preocupações sociais no século XXI (ficou surpreso!), informação esta que pode alegrar os adultos sem perspectivas para o futuro. Em seu segundo post A Miséria Paulistana, o olhar sociológico sobre a questão dos moradores de rua e a indiferença dos que por eles passam, somados a fotografias autorais de Danilo, formam um dos mais originais posts já publicados na blogsfera, o que é enriquecido pela poema Bicho, do bom e velho Manuel Bandeira. No ar desde o dia 21 de setembro de 2009, Dossiê teen promete ser um espaço de propagação de boas ideias, da juventude do proletariado, um espaço que irá instigar a discussão e a reflexão sobre temas da sociedade contemporânea. O link é: http://dossieteen.wordpress.com/ COISAS NOVAS O blog Coisas Novas, escrito por Rodrigo Aguiar, o mais assíduo colaborador deste espaço, em sua fase inicial, apresenta como post um belo poema que intercala palavras, as quais ampliam o sentido da obra, o título do feito é Museu do Futuro, leitura altamente recomendável. http://rerumnovarum.zip.net/index.html
Escrito por Fernando Rocha às 20h28
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CINEMA E REFLEXÃO: 1,99: UM SUPERMERCADO QUE VENDE PALAVRAS
A sensação de viver uma vida opaca, derivada de um tipo de material perecível e instantâneo, alicerçada em areia movediça, sentimento de estar confinado em um certo tipo de prisão,da qual é impossível fugir,onde as grades não encerram ninguém a imobilidade, pelo contrário, aguçam e oferecem a sensação de uma liberdade condicional que camufla o estado de prisão perpétua ao qual estamos submetidos, por meio de estímulos visuais e sonoros, que permitem comprar emoções empacotadas e ideais de vida pré-moldados. Após assistir ao filme: 1,99: Um supermercado que vende palavras, esta é uma possibilidade de sensação para o expectador, a qual pode invadir sua mente e lhe trazer um indesejado desconforto intelectual. Filmes de ficção científica tornaram-se menos irreais, Inteligência Artificial, de Steven Spielberg, que nos mostra a possibilidade de compra do amor incondicional de um filho andróide, ou o monitoramento feito nos sonhos dos andróides de Blade Runner não parecem mais impossíveis perante a realidade na qual vivemos. O conceito de construção do mundo por meio da linguagem fica mais claro após a exibição do filme, pois como a obra nos mostra que não compramos o conteúdo contido nas embalagens dos produtos, mas sim as ideias acopladas à eles por meio das diversas formas de linguagem da propaganda, remetendo ao que escreveu Humberto Gessinger em uma de suas canções: Propaganda é a alma do negócio/No nosso peito bate um alvo muito fácil. Fazendo uso novamente de uma citação de um verso de um outro compositor chamado Neil Young: Há mais a ser visto do que os olhos podem ver, fica claro que o que se subentende também está embutido no texto, tal conceito é confirmado pela criação estética do filme analisado,que mesmo sem a utilização da linguagem oral em narrativas lineares, nos oferece a possibilidade de construir um entendimento da obra, identificando alguns slogans já consagrados no mundo publicitário e os significados que estão intrínsecos à eles. Outro mecanismo que confirma este conceito são as mensagens subliminares freqüentemente utilizadas no mundo da propaganda, que tem o poder de induzir o consumidor a comprar sentindo vontade de adquirir um produto sem se dar conta da origem de tal desejo, comprovado cientificamente, como no histórico exemplo do aumento nas vendas de coca-cola e pipoca em um cinema americano na década de 50 do ultimo século, que se deu após a instalação de dois telões localizados ao lado da tela na qual a obra cinematográfica era exibida, com a mensagem subliminar que dizia: Tome coca-cola e coma pipoca! O fundo branco utilizado no filme funciona como um contraponto entre a violência visual causada pela propaganda que nos imobiliza tal qual um lutador de artes marciais, maquiando assim a sua verdadeira intenção com uma cor que em diversas culturas significa pureza, limpeza e ingenuidade, tal qual Stanley Kubrick fez no clássico, Laranja Mecânica, tornando a agressividade das cenas amenizadas pelos cenários coloridos, que beiram a infantilidade. Como bem diferenciou Jean Jacques Rousseau em seu célebre livro, O Contrato Social, há uma diferença entre a vontade de todos e a vontade geral, a primeira atende a um interesse comum a todos, entretanto, o segundo atende a um interesse privado aglomerado, olhando para a nossa sociedade vemos a primeira sucumbindo à segunda, e ambas sendo tratadas como se fossem sinônimos absolutos, e isto vem nos transformando em massa saboreada lentamente dentro da insaciável boca do sistema capitalista, no qual vivemos. Diretor: Marcelo Masagão Ano de lançamento: 2003
Escrito por Fernando Rocha às 11h46
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FELIZ COINCIDÊNCIA DA INFELICIDADE
Num distante 08 de Outubro, que coincidentemente, também caiu numa quinta-feira, entre o final do século XIX e o inicio do século XX, um escritor português chamado Manuel Laranjeira (1877-1912) escreveu em seu diário íntimo, o qual foi publicado em1957, palavras que de certa forma são a tradução do estado de espírito deste blog. Quinta, 8 de Outubro. Sinto a desolação horrível, trágica de quem já não pode iludir-se com nada e encontra em quanto existe a infinita miséria. E sinto a verdade daquelas palavras que às vezes digo como uma síntese do meu estado de espírito: -- Sofro da horrível desgraça do homem que olha para a vida e sente que já não pode ser enganado...
Escrito por Fernando Rocha às 13h28
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BEM VINDO!
Século XXI, a alta tecnologia rodeia toda a humanidade, botões poupam o esforço físico, diálogos são efetivados sem a utilização da voz, palavras vêm ao mundo, da mesma maneira que a queda dos anjos desertores, despencando das pontas dos dedos, se espatifando sobre as teclas dos computadores. A poluição curadora de uma constante exposição no céu mostra-se imponente perante aos artistas que a retocam diariamente, e esses não se preocupam com o que irá acontecer quando a obra estiver finalizada. O cuidado com a aparência ganha conotação de neurose, medicamentos antidepressivos fazem parte da moda da estação, a velha questão do ter e ser parece ter sido solucionada: só se é quando se têm! Neste mundo de coisas sem sentido, Gastão contempla as promessas de um futuro melhor, numa existência cheia de confortos, aproveitando o desconforto que a solidão lhe impõe, liga o computador à espera de uma mensagem eletrônica, mas sua caixa de entrada está vazia, tal qual a sensação que preenche o seu ser, há meses que o telefone não toca aproximando a voz de um amigo ao seu coração, após mais um momento de decepção, uma idéia golpeia seu raciocínio: -Mesmo com a promessa de poupar o tempo que a tecnologia oferece, a queixa mais freqüente que ouço é: “Não tenho tempo pra nada!”. Com esta idéia fixa na cabeça, Gastão passa alguns minutos mergulhados numa intensa inquietação em busca de conforto em alguns versos, após passar um tempo com os olhos fechados debruçado sobre a escrivaninha, mas as palavras não vêm. Por um instante o caos do mundo pareceu procurar abrigo dentro da cabeça do jovem, suas idéias criaram uma fórmula destrutiva combinando, incertezas, tristezas e solidão, seu corpo frágil não resiste à tamanha tormenta, concedendo-lhe um descanso, propiciado por um desmaio... Sentindo-se fora do tempo desperta com sua consciência estranhamente mais clara, após alguns instantes de inconsciência, levanta-se levemente tonto, dirige-se para janela de seu quarto e admira a devastação silenciosa da humanidade que mesmo em perigo não percebe que o fim a cerca num abraço confortante por meio das facilidades oferecidas pela “evolução” tecnológica, poupando-a das emoções naturais comuns ao seres humanos. As possibilidades de fuga são diversas, se estiver estressado não é necessário o descanso, basta tomar um medicamento anti-stress, se quiser encontrar alguém para conversar, não é necessário ir à um parque, casa noturna, basta ligar o computador e acessar um site de relacionamentos. Gastão insistentemente perguntava-se: -Será que não perceberam que estão se afastando cada vez mais? -Assim como a expansão do universo após o “Big Bang”, na qual os corpos celestes se distanciaram uns dos outros, pode ser que os humanos estejam sendo coordenados pela força dos tais corpos e condenados ao mesmo destino. O consumismo extremo que consumia a humanidade também o aborrecia, e mesmo num país de terceiro mundo como o Brasil, pessoas que não têm um bom grau de escolaridade e mal têm o que comer, possuem aparelhos de última geração, telefones celulares tornaram-se parte das vestimentas, e acompanhavam humanos em seus passeios, tal qual animais de estimação no passado. Assim como a história de Jó, Gastão esperava de alguma forma um alento que pudesse eliminar aquele sentimento de inadequação que crescia infinitamente dentro de si. Após pensar exaustivamente, chegou a uma conclusão, gritou: -Suicídio! Mas não teve coragem para consumar o ato, algo parecia prendê-lo ao plano terrestre. Há um tempo chegará a escrever versos de despedida: Padecer de existir Este o momento certo Para me autodestruir Acabar de vez Com o que havia por vir. A opção que lhe restou foi a de registrar todas as suas impressões em um velho caderno que possuía juntando assim um amontoado de decepções relacionadas à raça humana e a si mesmo, como se quisesse fazer com que as páginas do caderno absorvessem os males do mundo, funcionando como um tipo de filtro para sua sanidade. Restringiu-se da convivência com os seres humanos, e passou a ter como amigos discos e livros, com os quais dialogava em silêncio. Numa noite, na qual as lágrimas insistiam em não saltar do subjetivo para o mundo real, esta talvez a única mágica realizada pelos humanos, temperou seu interior com uma essência, que realçava o amargo da vida, saiu para espairecer, ouviu gritos enlouquecidos, parou em frente a uma igreja, silenciosamente observou o comportamento dos fiéis, após alguns minutos de observação, pensou: -Provavelmente devem estar desesperados por se deixarem ser explorados por alguém que não consegue solucionar seus próprios problemas e mesmo assim planta medo e incerteza na cabeça dos outros, para obter beneficio financeiro, como pode isto acontecer? Desapontado com a cena que acabara de presenciar, decidiu retornar para casa, pelo menos lá não se chatearia com o absurdo que se torna real a todo instante. A cabeça de Gastão parecia nunca descansar, outro fato que o incomodava bastante, era a falta de noção do coletivo com o qual as pessoas agiam no dia-a-dia, faltava reconhecer no outro um pouco da humanidade que há em si, se é que ainda há! Repentinamente, Gastão desistiu de colecionar seus desapontamentos com a raça humana num caderno, caiu em si e percebeu que ele também fazia parte de todo o desacerto que o atormentava, era mais um personagem, nessa história trágica, sem final previsto, recolheu a totalidade de sua força e coragem e assim como outros milhares de seres humanos, lavou o rosto, escovou os dentes, ignorou o significado das coisas, parou de procurar sentido em tudo, assumiu a indiferença existente em si, fechou os olhos para entrar no vasto grupo dos indiferentes, ao invés de massacrar o seu ser preferiu massificá-lo, ao fechar os olhos, ouviu um eco receptivo ressoando dentro de sua cabeça dizendo-lhe: - Bem vindo! Fernando Rocha, São Paulo, 2006
Escrito por Fernando Rocha às 14h07
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O MAIS CÉLEBRE ANARQUISTA
 Ao contrário do dilema proposto pela escultura O Pensador, Michael Alexandrovich Bakunin (1814 -1876), conseguiu conciliar as duas ações pertinentes à raça humana: pensar e agir, a primeira ficando prejudica em decorrência da segunda, o que dificulta para as gerações posteriores, o contato com parte de sua obra (textos) de maneira organizada. Bakunin é tido por muitos como o mais brilhante dos anarquistas, com boa formação filosófica, ele não se ateve apenas ao discurso, pois em prática seus ideais, participando de várias lutas contra o sistema que oprimia o proletariado, não se restringiu às fronteiras de seu país: A Rússia, com sua indignação participou de revoltas na Polônia, Itália, Bélgica, Espanha, Suíça e França. Por sua visão mais abrangente e quem sabe mais honesta, não enxergava fundamentos sólidos na ideologia comunista teorizada por Karl Marx e Fredrich Engels, pois para ele a tomada de poder pela classe do proletariado, não representaria mudança alguma, se a estrutura do Estado fosse mantida, pois se o governo fosse tomado pelos operários, haveria espaço no poder estatal para a voz de todos? Nesta última interrogação embora ele combatesse as ideias filósofo Jean Jacques Rousseau, ele retoma a questão proposta por este, acerca da vontade geral e a vontade de todos, sendo a primeira a representação de um interesse comum e a segunda o interesse de um interesse privado aglomerado, o qual resume de certa forma onde culminariam os interesses marxistas, quem viveu no século XX, após o governo de Stalin, pode perceber bem que o anarquista tinha razão. Se você perdeu a esperança ou fé em governos de esquerda e não vê luz alguma nas propostas da direita, ainda há uma opção, a ausência de hierarquia, ou melhor, a anarquia, pode ser que a humanidade ainda não esteja pronta para este modelo de sociedade, mas se não nos prepararmos, ele nunca entrará em vigor. Alguns textos de Bakunin foram compilados e publicados pela editora L&PM, em sua coleção de livros de bolso com o título Textos Anarquistas, os quais são vendidos a preços extremamente acessíveis (mais baratos do que uma pizza!), traduzidos por Zilá Berndt e com notas de rodapé que fornecem ao leitor uma boa visão do contexto histórico, feitas por Daniel Guérin, eis uma boa chance de entrar em contato com as ideais deste visionário do século XIX. Se Buda e Francisco de Assis são admirados por terem aberto mão de sua fortuna para se dedicarem à espiritualidade, Bakunin como membro de uma família de proprietários de terra, abriu mão de seu conforto para tentar abrandar um pouco da injustiça existente em seu tempo, a qual infelizmente ainda perpetua até nossos dias, como podemos perceber neste trecho do livro, qualquer semelhança com os ocorridos políticos no Brasil nos últimos oito anos, não é mera coincidência: Certamente antigos operários que, no momento em que se tornarem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e passarão a olhar o mundo proletário do alto do Estado; não representarão mais o povo, mas a si próprios e suas pretensões de governá-lo. (Pg. 128)
Escrito por Fernando Rocha às 13h10
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AH, A GRIPE A!

Numa metrópole como São Paulo, o indivíduo passa despercebido, no meio da multidão captada pela retina de qualquer transeunte, contudo, com o problema da gripe A, alguns cidadãos utilizando máscaras cirúrgicas, uns para se proteger, outros já infectados para proteger os demais, tornam-se um alvo fácil para o olhar dos que os cercam, frágeis vitimas do constrangimento e da ignorância. Além da saúde, a epidemia causa outros problemas na fria cidade, o preconceito contra os mascarados é um deles, as recomendações para que um cidadão evite ser contaminado, além de agir no campo de prevenção, aumenta a frieza existente nas grandes cidades, tornando-se assim uma faca de dois - gumes, pois inclusive nos cultos religiosos, nos quais costumeiramente há um espaço para confraternização entre os fiéis, o abraço e os apertos de mãos foram proibidos, ou melhor, não são recomendados. O toque de um ser em outro se tornou motivo de risco, agregado ao comum desprezo da metrópole, gerou um isolamento maior no aglomerado de solidão cantado por Tom Zé, o que faz a humanidade perecer por dois motivos, a ausência do outro para existir o eu e o fator letal da infecção. As propagandas do ministério da saúde fazem parte de uma confissão de incompetência de um governo, que sabe da ignorância do povo que governa ri como uma hiena sobre tão triste fato, pois a partir do ponto que se gasta verba pública para ensinar a população sobre qual é a maneira correta para se lavar a mão, há de fato algo de podre no reino da Dinamarca, e o processo de decomposição na nação tupiniquim está muito avançado, e a fedentina é insuportável. O perigo do único medicamento para o problema está nas mãos do governo (que possui apenas 5% da quantidade preconizada pela Organização Mundial da Saúde, quando o ideal é de 25% referente à população total do país) é o estado ditatorial instaurado, pois em um precário sistema de saúde pública, esperar que o Estado lhe dê o aval para saber se há o não vírus em seu organismo, assim consequentemente lhe dê o medicamento, assemelha-se ao jogo de roleta russa. Se de um lado existe este problema, por outro lado se os medicamentos forem comercializados, se tornará no meio de tanta incerteza da ciência e temor por parte da população desinformada, moeda forte para o enriquecimento da indústria farmacêutica. Um labirinto se forma e a saída é estreita em meio a tanta confusão.
Escrito por Fernando Rocha às 15h51
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MÚSICA: UM CD E UM DVD

Um projeto para uma universidade escocesa em 1995, o qual acabou desaguando na gravação de um álbum, com apenas 1000 edições, as quais se esgotaram rapidamente, consequentemente despertando o interesse da gravadora Jeepster, culminando inevitavelmente num contrato. Eis o resumo do inicio de uma das melhores e mais honestas bandas da segunda metade da década de 90: Belle & Sebastian. Os dois primeiros álbuns da banda soam como extensão das composições do seu líder Stuart Murdoch, com o terceiro trabalho inicia-se perceptivelmente a construção de uma sonoridade coletiva, a qual permite posteriormente a construção de um belíssimo disco: Fold your hands child, you walk like a peasant, lançado no ano de 2000. Iniciado como os três álbuns anteriores, Stuart canta I Fought in a War, acompanhado pelo seu doce violão, para na segunda metade da canção ser acompanhado pela banda, destacando-se a bela harmonia de guitarra de Stevie Jackson, enquanto as lembranças da amada de um soldado invadem sua mente, no campo de batalha. Há neste trabalho duas influências perceptíveis, os britânicos dos Smiths e, sobretudo a estética sonora da lenda folk Nick Drake. Segundo um consenso do grupo é neste trabalho que está a melhor música composta por eles: Don´t leave the light on Baby, a quinta faixa do disco. As letras sobre pessoas solitárias, desprezadas pela sociedade embrutecida, são o ponto alto da banda, o que gera também uma grande identificação por parte dos fãs, na sétima faixa: The Chalet lines, como nos manda a tadição folk, é contada a história de uma garota violentada durante uma festa, o piano que conduz a canção acentua a dramaticidade da obra. A última faixa Too Much love, conta a história de um garoto que se sente deslocado num baile, mas decide se libertar dançando, o belo arranjo de cordas dentro da canção dançante, soa como algo inovador, mesclando melancolia e alegria. Foi durante a divulgação da turnê deste álbum que o grupo passou pelo Brasil, como uma das atrações do extinto festival freejazz.Se você aprecia artistas que não possuem a intenção de se colocar a frente de sua arte, preservando sua intimidade e não entrando no delírio de se achar melhor do que os demais seres humanos, certamente irá apreciar este cd.

Poucos artistas conseguem manter uma carreira longa associada à dignidade artística, mesmo com as normais baixas criativas existentes dentro da longevidade, Neil Young é um dos raros exemplares que ainda habita o nosso mundo. Com a direção de Jonathan Demme (o diretor do filme O Silêncio dos Inocentes), tendo como cenário um dos templos da música folk, o Auditório Ryman, localizado em Nashville, as canções de seu álbum Prairie Wind funcionam como base do repertório, reforçado por algumas faixas do clássico álbum Harvest e do álbum que celebra a existência deste: Harvest Moon, Young cercado de amigos que gravaram estes três álbuns com ele realizam um magnífico espetáculo, o qual podemos assistir no dvd Heart of Gold. O velho e nobre canadense nos intervalos das canções, lembra histórias de sua infância, do seu pai recém falecido, dedica uma bela canção chamada I´m here for you para sua filha prestes a voltar da universidade, o que ganha um caráter emotivo tendo sua esposa Pegi Young como membro da sua banda. O dvd é duplo, um disco contém o show e outro um making of do show, com entrevistas com os membros da banda e com o próprio Neil Young, destacando-se nos extras uma apresentação do artista no programam de Johnny Cash, nos anos 70. Vale a pena conferir dignidade artística em puro êxtase!
Escrito por Fernando Rocha às 14h00
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ORAÇÃO DO BURGUÊS
Senhor Dinheiro, Tu que para mim és tudo, possibilitando-me tudo ter, Extermine esta bobagem de ser, Não! Não quero substância: Essência, Só quero símbolos obsoletos. Conceda-me o dom de iludir-me, Abraçar e acariciar o vazio, preenchendo-o com a vã sensação de conquista. Prometo ir a vosso templo para ampliar - ti, Afinal Dinheiro é tempo E tempo é tudo que me faz Obter o todo, toda a beleza Que invento, uso e vendo aos menos favorecidos. Hipocrisia semântica, para me referir Ao explorado proletariado. Não é nada pessoal, senhor Dinheiro, Apenas reproduzo o poder que há em ti, Utilizado para com a minha pessoa, Oprimindo quem me serve, para que eu possa te servir. Sua vontade é sempre feita, Por meio dos tentáculos Que nos cercam e hipnotizam. Sua onipresença me conforta, Determina o que sou Perante os outros, fazendo-me Esquecer que diante do espelho, não há NADA, Nada em meu interior. Fernando Rocha, 20 de julho de 2009
Escrito por Fernando Rocha às 15h31
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CINEMA: O CONTADOR DE HISTÓRIA, ESSE VALE O INGRESSO!

Longe da pretensão de se tornar uma pérola do cinema nacional, o filme O contador de Histórias, demonstra sua força por meio de uma boa história, bem comum na realidade brasileira, o hoje pedagogo e contador de história, tal qual anuncia o título da obra, Roberto Carlos, por meio do recurso do flashback, reconstrói sua história de vida. Um ótimo trabalho ilusório do governo que por meio da propaganda, divulga o serviço da FEBEM, o qual desperta o interesse de uma mãe pobre, que decide internar seu filho naquele lugar, que prometia torná-lo um homem de sucesso. Contudo, a realidade se mostra bem diferente, e ao crescer insatisfeito dentro daquela instituição falida, o menino Roberto foge inúmeras vezes de lá, sendo posteriormente recapturado. O ponto de ruptura em sua vida se daria no momento em que conheceria a pedagoga francesa Margherite Duvas, que estava no Brasil para realizar uma pesquisa e se interessou por seu caso ao visitar a instituição na qual o menino considerado irrecuperável, estava internado. A inserção da narração em primeira pessoa em alguns trechos do filme, realizada pelo próprio Roberto, dão força à película. Num país tão carente de bons exemplos (haja vista a atual crise no senado) e com o péssimo costume de valorizar apenas pessoas mortas, mais do que seu xará, o rei, Roberto é um exemplar vivo de que não há seres-humano irrecuperáveis.
Escrito por Fernando Rocha às 13h16
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NO BARROCO DAS MINHAS COBERTAS
Eu vi uma luz sem igual, um som sem igual, quer dizer, o som eu ouvi, mas pensei que vi. Senti aquela luz sem igual como um beijo estralado na face, e que beijo, queimando minha pele. Eu tenho pele? Fujo das sombras quentes, do escuro malvado que só me quer para guardar meu coração; sou como uma donzela de alma linda e pura, resguardada pelos ventos, amante das brisas, das janelas abertas, uma protegida pelos sentimentos... Existo sem me ater ao existir, vivendo presa a um Eu que não sou, enfim vivo plena em mim. Confesso! Protegida em minhas cobertas, procurando uma fuga, era bem ali que eu estava no momento em que dois eventos me resgataram dessa escuridão, a luz vinda da porta e a boca da minha mãe gritando meu nome manhã adentro. O som já não era tão sem igual assim. Mônica dos Anjos 04/02/09
Escrito por Fernando Rocha às 15h42
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A PORTA
Rádio relógio, desejo contrariado, chinelo, banheiro, café, banho, e mais uma vez lá estava ela: A porta, aqui dentro, ela sentia-se protegida, embora ás vezes solitária, lá fora indiferença, caos e um processo de desumanização diário. A porta, fonte de liberdade, quando criança, objeto dantes a ser transposto, agora que ninguém mais podia detê-la ou controlá-la, lhe garantia segurança, um estranho bem estar. Com o coração na mão decidiu tocar na fechadura, a mão tremula tentava controlar o chaveiro que balançava insistentemente a contragosto, apanhou a mochila e prosseguiu... Ao entardecer, a hora do retorno se aproximava, agora, organização da sua mesa e um até logo silencioso para os companheiros de serviço, mas sem obter um grande êxito, ouvia o silêncio lhe ser respondido. Cerca de uma hora depois, lá estava ela novamente: A porta, agora do outro lado, de maneira inconsciente a velocidade dos passos diminuía, como aquele objeto inanimado tinha tanto poder sobre ela? Um parto as avessas estava prestes a acontecer, o livro que não terminara de ler, a comida de ontem para ser requentada estavam à sua espera, e ela a espera de uma nova sensação que lhe libertasse daquela cadeia. Fernando Rocha
Escrito por Fernando Rocha às 09h36
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